quinta-feira, abril 12, 2007

Avó


O entrelaçado de rugas que percorrem a tua face contam a história da tua admirável vida, como quem folheia um enorme e épico romance de um escritor mundialmente famoso, bebendo cada palavra dos teus tradicionais apólogos das noites pardacentas, em que nos sentavas à lareira, acariciavas-nos com uma enorme chávena de um delicioso leite com chocolate como só tu sabias fazer, e que ainda hoje sinto o seu cheiro pairando em meu redor quando me relembro desses serões de histórias e aventuras declamadas.
As ondas do teu cabelo de algodão reflectiam o fio de luz que brotava do lustre de duzentos anos que teimavas em preservar como um tesouro de valor incalculável, não por razões financeiras, mas sim pelas recordações que ele te trazia, e era sempre com os olhos fixos nele que começas a divagar pedaços da tua vida, das viagens que fizeste, dos lugares que percorreste, das aventuras que viveste, sempre com aqueles pormenores que nos fazia prender toda a nossa atenção aos gestos das tuas mãos, ao tom hipnotizante da tua voz.
Agora que a inocência da infância já passou por mim a passos largos, sinto as nostalgia dessas noites mágicas de contos de fadas, de heróis e vilões, de aventuras e viagens de encantar, do leite quentinho e das rabanadas que nos aqueciam por dentro, da expressão dos teus olhos que brilhavam para nós, do calor dos teus dedos que nos afagavam os cabelos na hora de dormir, do cheiro quente do arroz doce logo pela manhã, das brincadeiras que inventavas para nos entreter.
Hoje, olhas para mim com o mesmo brilho nos olhos de antigamente, mas a vivacidade do teu corpo já à muito que te abandonou, hoje, sou eu que afago os teus cabelos brancos como a neve, que te reconto as tuas belas histórias, mas o sorriso, o teu sorriso sempre foi o mesmo, aquele sorriso esbelto, sincero e afectivo, aquele sorriso que nunca irá abandonar a minha memória, o teu sorriso de avó…